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OS FÓSSEIS ENTENDERAM-SE SEMPRE DO MESMO MODO?
 
 





 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Podemos organizar as ideias sobre a interpretação dos fósseis ao longo dos tempos em quatro etapas:

1. PERÍODO CLÁSSICO (ANTIGUIDADE - SÉCULO XVIII)

Os fósseis sempre atraíram a atenção, a curiosidade e por vezes o interesse religioso das culturas da antiguidade.
Conhecem-se alguns enterramentos do Paleolítico, Neolítico e da Idade do Bronze em Inglaterra, onde os esqueletos humanos se encontram rodeados de vários fósseis.

Em Portugal, encontraram-se dentes de tubarão do período Miocénico (cerca de 24 a 5 milhões de anos) na necrópole neolítica de Aljezur. O homem pré-histórico já conhecia os fósseis, embora não se saiba que significado lhes atribuía. Magia?... Adorno?...

Desde tempos muito remotos que a medicina tradicional chinesa recorre aos fósseis para tratamentos clínicos. O Jesuíta e Académico João de Loureiro (séc. XVIII) dá-nos conta de que “dentes de dragão” e outros, serviam como “absorbente” «interiormente nas febres, nas dysenterias, nas diarrhéas, nos tenesmos, …», e «externamente saõ uteis nas inflamações, e apostemas».

Pitágoras

Na antiguidade, os egípcios e a Escola Pitagórica grega, elaboraram uma interpretação correcta dos fósseis marinhos, bem como dos mecanismos da sua formação, de acordo com o que se pensa actualmente. Xenófanes de Colofon (séc. IV a.C.) reconheceu a verdadeira natureza de impressões vegetais fósseis e, um século mais tarde, Heródoto interpretava correctamente fósseis marinhos do vale do Nilo.

 

Porém, a Escola Platónico-Aristotélica introduziu novas interpretações sobre os fósseis. Propunham a intervenção de uma virtude plástica (vis plastica ou virtus formativa) que através de uma semente, formava e desenvolvia os fósseis na terra; propunham também a acção de um suco lapidífico (sucus lapidescens) ou de um sopro vindo do betume terrestre (aura bituminosa), que por acção dos raios solares emergia da Terra e petrificava os organismos vivos.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, a ocorrência de restos de animais marinhos longe do mar constituía uma clara demonstração dos acontecimentos relacionados com o Dilúvio e suas vítimas. Os fósseis de peixes encontrados em sedimentos cretácicos do Líbano eram uma prova de o Dilúvio ter coberto altas montanhas, segundo Eusébio de Cesareia (263-339). Paulo Orósio (Paulus Orosius, 385?-423), discípulo de Sto. Agostinho de Braga, dá a mesma explicação quando é confrontado com moluscos, como ostras, em serranias afastadas do mar.

Avicenna

No século X o médico árabe Abu ibn Sinna, conhecido na Europa cristã como Avicenna (980-1037), retoma a ideia da Escola Aristotélica na sua obra De congelatione et conglutinatione lapidum e, utilizando o mesmo princípio, explica a formação dos fósseis. Nesta obra, indica que esta vis plastica seria capaz de dar às pedras formas semelhantes a animais e plantas, não conseguindo porém dar-lhes vida. Os fósseis seriam ensaios mal sucedidos da natureza para criar seres vivos, conseguindo somente imitar-lhes a forma.

 

Pouco se sabe do entendimento dos fósseis na Idade Média em Portugal. Conhecem-se poucos relatos e utilizações. Salienta-se o tronco silicificado de conífera cretácica que serve de pelourinho em Pederneira, ao lado da Nazaré e a Pedra da Mua, a Norte do Cabo Espichel, junto da enseada de Lagosteiros. Trata-se de um notável conjunto de pistas de dinossáurios que parecem sair das águas. As pegadas correspondem a diversos sáurios e observam-se em camadas do Jurássico superior com cerca de 145 Milhões de anos (Ma), e do Cretácico (cerca de 125 Ma). A área é frequentada desde o Paleolítico, tendo tido ocupação islâmica. O culto cristão remonta ao século XIII, e reza uma lenda que Nossa Senhora ou a Sua imagem desembarcaram, subindo a arriba a dorso de mula (= mua em português arcaico). As pegadas da “mua” teriam então ficado impressas arriba acima.

Agricola

Durante os séculos XV e XVI (Renascença) mantêm-se as interpretações que consideram os fósseis jogos da natureza (ludus naturae) sem qualquer valor científico, apenas curiosidades. Assim pensam grandes naturalistas renascentistas como Georg Bauer (Agricola) (1494-1555). Agricola admitiu que os fósseis resultavam de seres vivos que petrificavam por acção de suco lapidificante (succus lapidescens).

 

Leonardo da VinciMas o espírito renascentista abre algumas interpretações correctas acerca dos fósseis em algumas mentes mais livres de preconceitos e providas de sentido crítico, desde da Vinci a Palissy (séc. XVI).

Leonardo da Vinci (1452-1519) ensaia retornar às ideias pitagóricas sobre os fósseis, embora o seu pensamento não tenha sido aceite pelos seus pares. Afirmou que as conchas fósseis encontradas correspondiam a seres vivos marinhos, que tinham habitado tais terrenos antes ocupados pelo mar.

 

Contemporâneo de Palissy foi Konrad Gesner, naturalista suíço autor da obra "De Rerum Fossilium...". Gesner descreveu, figurou e organizou colecções de fósseis apesar de não se ter manifestado de forma clara acerca da sua natureza.

 

StenonÉ já no século XVII que, para interpretar o aparecimento de grandes ossos de mamíferos antigos, se propõe uma origem biológica dos fósseis. Quem mais contribuiu para esta mudança de pensamento, foi o dinamarquês Niels Stensen, mais conhecido pelo seu nome latinizado Nicolás Stenon (1638-1686). Stenon Glossopetraeconcluiu que as glossopetrae, anteriormente julgadas línguas de serpente, não eram mais do que dentes de tubarão autênticos que teriam vivido há muito tempo e cujos restos teriam sido enterrados no fundo marinho primitivo. Tê-lo-á descoberto ao dissecar a cabeça de um gigantesco tubarão branco capturado em Itália em 1666. É o começo da interpretação biológica dos fósseis que terá o seu desenvolvimento pleno no século XVIII.

Contemporâneo de Stenon foi o inglês Robert Hooke que interpretava os fósseis como restos de organismos que haviam sido submetidos a um processo de petrificação.

 

Nesta época, o mito do Dilúvio Universal bíblico ressurgiu, tendo-se unido à interpretação biológica dos fósseis funcionando como justificação teológica da extinção das espécies. O achado de fósseis marinhos em terra era testemunho do drama diluvial. Muitos foram seus adeptos, como Martinho Lutero (1483-1546). O exemplo mais caricato deste período vem de Öhningen, perto do Lago Constança, na Suíça. Foram recolhidos fósseis do Miocénico superior (5 a 11 Ma), destacando-se um esqueleto descrito em 1726 por Johann Jakob Scheuchzer (1672-1733), naturalista de Zurique. Este identificou-o como uma testemunha do Dilúvio – o Homo Diluvii testis: “filho da danação, por causa de cujos pecados a catástrofe (o Dilúvio) atingira o Mundo inteiro”. Ao chegar ao conhecimento de um dos principais fundadores da Anatomia Comparada e da Paleontologia - Georges Cuvier - imediatamente classificou o dito fóssil, correlacionando-o com as actuais salamandras gigantes. O Diluvialismo ia perdendo força!


2. PERÍODO DO NASCIMENTO DA PALEONTOLOGIA

No século XVIII, o desenvolvimento científico assume importância crescente. Na Biologia destacam-se o naturalista sueco Carl von Linné (1707-1778) que inicia a sistemática dos seres vivos na sua obra Systema Naturae, 1758; e Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788). Buffon, autor da Histoire Naturelle, apresentou um amplo conhecimento dos animais.

CuvierO fundador da Paleontologia moderna é o barão G. George Cuvier (1769-1832). Cuvier, aplica conhecimentos da Zoologia e da Botânica actuais ao estudo dos animais e plantas fósseis encontrados através da Anatomia comparada. Situa-os ainda num determinado período de tempo geológico passado, aproveitando as ideias de William Smith (1768-1839), iniciador da Paleontologia Estratigráfica.

Cuvier trabalhou no Museu de História Natural de Paris dedicando-se especialmente ao estudo dos vertebrados. No seu estudo, deparou-se com alguns fósseis de dimensões extraordinárias, muito maiores do que as espécies actuais. Para explicar as suas dimensões e o seu desaparecimento (extinção), Cuvier propôs que a Terra sofria de poderosas convulsões periódicas (as “revoluções do globo”). Nestas ocorreriam extinções de muitos animais, e seriam seguidas por períodos de calma, onde se produziria uma nova criação.Lamarck

Cuvier pode ser considerado o fundador da Paleontologia dos Vertebrados. No entanto, é Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) que na sua obra "Historie Naturelle des Animaux sans Vertèbres" (História Natural dos Invertebrados) de 1802, lança a Paleontologia dos Invertebrados. De referir também que é Lamarck quem lança a primeira teoria fundamentada sobre a evolução dos seres vivos, que foi contestada pelo próprio Cuvier, que propunha uma visão catastrofista da História da Terra. Cuvier foi inimigo irreconciliável de Lamarck, pela oposição das suas ideias fixistas / transformistas.

É na primeira metade do séc. XIX, que nascem os ramos fundamentais da Paleontologia: Brongniart criava a Paleobotânica, Lartet a Paeloantropologia, Ehremberg a Micropaleontologia. Alcide D'Orbigny desenvolvia a Paleontologia Estratigráfica em toda a sua extensão.

 



3. PERÍODO EVOLUCIONISTA / DARWINISTA

LyellNo século XIX Charles Lyell (1797-1875), geólogo e mestre de Charles Darwin (1809-1882), abre a geologia moderna com o seu princípio do uniformitarismo. Neste, Lyell refere que a Natureza manteve desde sempre as mesmas leis.

Os processos geológicos desenvolvem-se de forma natural, devido a processos físicos, químicos e biológicos que actuam de forma lenta, gradual e contínua ao longo dos tempos geológicos.

Com este princípio Lyell pôs em causa o catastrofismo associado ao Dilúvio, e assentou as bases para o desenvolvimento das ideias evolucionistas de Darwin.

Os fósseis eram um poderoso auxiliar do geólogo de campo que lhe permitiam datar os terrenos, pois acreditava que estes correspondiam a unidades estáveis com uma variabilidade muito limitada e bem adaptados a um lugar próprio na natureza.

Darwin

Darwin não se interessou tanto pelo valor estratigráfico dos restos fossilizados, mas sim pelo seu valor como testemunhos da selecção natural, e sobretudo da evolução das espécies. Na sua obra "On the Origin of Species", 1859,

Darwin inicia uma aliança frutífera entre os aspectos biológicos e geológicos dos fósseis.

 


4. PERÍODO ACTUAL: A GEOLOGIA GLOBAL

Na actualidade, os fósseis adquiriram um significado mais abrangente. Além de continuarem a ser auxiliares preciosos dos geólogos na Biostratigrafia, eles são profusamente usados na:

  • reconstituição de ecossistemas antigos – Paleoecologia;
  • na organização da distribuição espacial de organismos antigos – Paleobiogeografia;
  • nos estudos sobre Evolução.

Os fósseis são chaves que nos abrem as portas do passado, permitindo-nos conhecer melhor a História da Terra!

Que afinal…

também é a nossa história!