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Geologia e estratigrafia do Baixo Mondego
 
 





 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As unidades estratigráficas aflorantes neste espaço organizam-se segundo uma coluna espessa que, na sua base, assenta discordantemente sobre metassedimentos precâmbricos e paleozóicos, abrangendo um intervalo que se estende desde a base do Mesozóico (Triásico superior) até aos tempos modernos. Dada a relevância das formações mesozóicas, centrar-nos-emos nestas.


TRIÁSICO SUPERIOR

Os afloramentos da base do Mesozóico português expostos na região, assentam discordantemente sobre materiais do Maciço Hespérico e correspondem a depósitos detríticos que se encontram dispostos segundo uma faixa alongada (Aveiro - Tomar) situada na bordadura da Orla Meso-Cenozóica Ocidental, ou no seio de formações mais recentes. Este grupo atinge o seu desenvolvimento máximo na periferia de Coimbra. Foram inicialmente descritos por P. Choffat (1880-1903), que os designou como GRÉS DE SILVES; C. Palain, em 1976, definiu também três megassequências positivas – A, B e C – dentro deste grupo.
Soares et al. (1985), retomando as descrições antecedentes, considerou a unidade como um Grupo que compreende três sub-unidades litostratigráficas das quais a terceira é contemporânea do Jurássico basal
.

CAMADAS DE CONRARIA
Correspondentes à unidade “Grés à rouge brique” de Choffat (1880-1903) e à megassequência A de Palain (1976), são depósitos essencialmente areno-conglomeráticos de cor avermelhada que assentam em discordância angular sobre o soco cristalofílico, ou localmente sobre o Pérmico inferior greso-conglomerático. Estas, tal como a unidade triásica que se segue, dispõem-se ao longo da bordadura da Bacia Lusitaniana numa faixa entre Aveiro e Tomar com cerca de 115 km de extensão; a sua espessura não tem merecido consensos, tendo Soares et al. (1985) admitido que não ultrapassa os 50 m. Do seu conteúdo fóssil, observam-se icnitos pouco frequentes, em contraste com fragmentos vegetais localmente abundantes.



Camadas de Conraria assentes discordantemente sobre o Complexo Cristalofílico (Botão)

CAMADAS DE CASTELO VIEGAS
Equivalentes à unidade “Grés à nuance claire” de Choffat e à sequência B1 de Palain, são representadas por arenitos cremes a esbranquiçados, ricos em feldspatos, com fósseis raros. Encontrando-se em continuidade sedimentar com a unidade anterior, constituem a série mais espessa (170-190 m).

JURÁSSICO INFERIOR OU LIAS

CAMADAS DE PEREIROS
Consistem numa sucessão greso-carbonatada, dolomítica, com Isocyprina e Promathildia, fósseis já atribuíveis ao Lias (Hetangiano). Equivalem no sector ocidental da Orla às MARGAS DE DAGORDA, que afloram na região de Soure, associadas ao núcleo do anticlinal diapírico aí existente.
Do ponto de vista paleontológico, esta unidade encerra fósseis de bivalves e de gastrópodes característicos do Lias inferior, denotando já influências marinhas ténues. Destacam-se os moldes abundantes de Isocyprina germari (Dunker) e mais raros de Promathildia turritella (Dunker) e de Homomya ? cuneata (Boehm).


Camadas de Pereiros (Lordemão)

CAMADAS DE COIMBRA
Em articulação com os corpos pelito-dolomíticos das CAMADAS DE PEREIROS, encontram-se as unidades dolomíticas e calcárias das CAMADAS DE COIMBRA s.l.. A unidade aflora no sector oriental, onde Soares et al. (1985) consideram espessuras da ordem de 100 ± 30m.

Na região oriental, mais próximo do soco, Soares et al. (1985) subdividiram esta unidade em dois membros, baseando-se no binómio calcário-dolomia:

• na base, as CAMADAS DE COIMBRA s.str., essencialmente dolomíticas;
• no topo, as CAMADAS DE S. MIGUEL, de predominância calcária.

As CAMADAS DE COIMBRA s.str. são compostas por bancadas dolomíticas espessas, alternando com margas centimétricas e raros bancos de calcário. P. Choffat descreve como sendo particularmente abundantes – Boehmiola exilis (Boehm), Unicardium costae (Sharpe) e “Ostrea” sublamellosa (Dunker).

As CAMADAS DE S. MIGUEL são constituídas por uma série de calcários e calcários dolomíticos na base observando-se, no topo, alternâncias com níveis centimétricos de margas. Merece destaque a abundância relativa de amonóides relativamente às faunas de bivalves e de braquiópodes.
A informação biostratigráfica aponta para idade dentro do Sinemuriano–Lotaringiano. A análise de fácies e sequências permite deduzir que se trata de um conjunto que traduz evolução na sedimentação marinha em subsidência progressiva.


MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE EIRAS
Ao conjunto atribuível ao Carixiano-Domeriano correspondem duas unidades que se integram numa sequência maior – as MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE EIRAS :

• na base, as MARGAS DE EIRAS (=MARGAS DE QUIAIOS, Soares et al., 1988; = MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE VALE DAS FONTES, Barbosa et al., 1988);
• no topo, os CALCÁRIOS MARGOSOS DE LORETO (= parte dos CALCÁRIOS DE LEMEDE, Barbosa et al., 1988).

As MARGAS DE EIRAS correspondem essencialmente a uma alternância de margas e calcários margosos. Bioturbadas e com alguns fragmentos carbonosos, são particularmente ricas em Plicatula (P.) spinosa (Sowerby) var. pectinoides (Lamarck), artículos de Pentacrinus basaltiformis (Mil.) e Belemnites.


Margas e Calcários Margosos de Eiras (Estrada de Eiras)

A unidade CALCÁRIOS MARGOSOS DE LORETO corresponde a uma série predominantemente calcária, fossilífera, contendo intercalações margosas muito finas. Localmente muito rica em amonóides e belemnites, destaca-se a abundância em Pleuroceras solare (Phil.), raros Pecten (Pseudopecten) acuticostata (Lamarck) e Pleuroceras spinatum (Brug.). O tecto da unidade revela riqueza local em Emaciaticeras sp., permitindo a datação da unidade como Domeriano superior.
No sector ocidental e relacionada com a unidade anterior (flanco norte da Serra da Boa Viagem e nos flancos do anticlinal de Cantanhede), afloram os CALCÁRIOS MARGOSOS DE LEMEDE, correspondentes, em parte, ao Domeriano médio-superior e sendo formados por alternâncias de calcários argilosos bastante compactos, separados por finos leitos de margas. Destacam-se associações de Amaltheus margaritatus (Montf.), Pleuroceras solare (Phil.), Pleuroceras spinatum (Brug.), Lioceratoides sp. var., Emaciaticeras emaciatum (Cat.) e E. imitator (Fuc.) abundantes. Esta associação permite incluir esta unidade entre o Domeriano superior e a base do Toarciano inferior.


MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE PEDRULHA
As MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE PEDRULHA (=MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE CANTANHEDE, Barbosa et al., 1988), correspondem fundamentalmente ao Toarciano de Choffat (1880) e consideram-se, de baixo para cima, duas sub-unidades:

• MARGAS E MARGO-CALCÁRIOS DE ADÉMIA do Toarciano;
• CALCÁRIOS MARGOSOS DE PEDRULHA, de idade Aaleniano inferior a médio.
Estas unidades são equivalentes, respectivamente, das MARGAS CALCÁRIAS DE SÃO GIÃO e dos CALCÁRIOS MARGOSOS DE PÓVOA DA LOMBA, da região de Cantanhede.

A unidade MARGAS E MARGO-CALCÁRIOS DE ADÉMIA corresponde a uma série espessa de margas e calcários margosos friáveis. Da fauna descrita destacamos na base Nannirhynchia pygmaea (Morris), Spiriferina sp., Plicatula sp., Passaloteuthis sp., Hildaites sp., Dactylioceras sp., e Dactylioceras semicelatum (Y. & Bird). Segue-se uma sequência essencialmente margosa, pouco fossilífera, correspondente às designadas “MARGAS CHOCOLATE”. Subindo na série encontram-se os “CALCÁRIOS EM PLAQUETAS”, também estes muito pobres em macrofauna.
No geral a fauna é monótona e rara, exceptuando-se os braquiópodes. Identificam-se bivalves indeterminados, Pecten sp. e Pholadomia sp. e exemplares de Rhynchonella sp., Terebratula sp., Terebratula jauberti (Desl.), Lytoceras sp., Dactylioceras sp., Dactylioceras choffati (Renz), Hildoceras sp., Hildoceras lusitanicum (Meister), Hildoceras sublevisoni (Fuc.), Hildoceras cfr. douvillei (Haug), Polyplectus pluricostatus (Haas), Nodicoeloceras sp., Hammatoceras sp. e Osperlioceras sp..
Na passagem do Toarciano médio para o superior, ocorrem raros corpos biostrómicos (mud mounds) de espongiários siliciosos, com espessuras médias entre os 40 e 50 cm, associados a macrofauna bêntica abundante e diversificada.

Os CALCÁRIOS MARGOSOS DE PEDRULHA correspondem essencialmente a calcários micríticos e/ou margosos interstratificados com margas e margas calcárias... A fauna revela Hammatoceras sp., Spinammatoceras sp., Tmetoceras gr. scissum (Ben.), Planammatoceras gr. tenuiinsigne (Vacek), Planammatoceras gr. planiforme (Buck.), Ancolioceras cfr. opalinoides (Mayer), Leioceras (Leioceras) gr. opalinum (Rein.) e Leioceras (Cypholioceras) gr. comptum (Rein.).
Segundo Henriques (1989), as biozonas do limite Toarciano-Aaleniano são bem carecterizáveis por estudo biostratigráfico pormenorizado. Esta autora tem publicado vários trabalhos sobre o Aaleniano e sobre a transição Lias/Dogger baseada em faunas de amonóides, tendo ultimamente vindo a correlacionar os dados da Bacia Lusitaniana com os das Cordilheiras Bética e Ibérica. Esta unidade é enquadrada no Aaleniano inferior a médio.


Calcários margosos de Pedrulha (Estrada de Eiras)

 

JURÁSSICO MÉDIO OU DOGGER

A partir do Aaleniano a sedimentação torna-se progressivamente mais carbonatada, denotando-se um pólo mais calcário na bordadura da bacia, onde tem uma espessura significativamente constante.
Como se referiu anteriormente, a parte inferior do Aaleniano surge descrita conjuntamente com as unidades toarcianas na Formação MARGAS E CALCÁRIOS MARGOSOS DE PEDRULHA, aí correspondendo a um sub-conjunto mais calcário, definido no sector oriental como CALCÁRIOS MARGOSOS DE PEDRULHA e a ocidente como CALCÁRIOS MARGOSOS DE PÓVOA DA LOMBA.
Quanto à parte superior do Aaleniano e aos andares seguintes, verifica-se que a sucessão sedimentar correspondente se reparte por dois grandes domínios com características bem distintas: (1) um domínio composto por unidades essencialmente calcárias, de que constituem bons exemplos os calcários da região de Ançã-Portunhos; (2) um domínio composto por unidades em que as alternâncias rítmicas margo-calcárias são dominantes. Este último domínio, encontra maior expressão no sector do Cabo Mondego – Serras da Boa Viagem e das Alhadas. É aí que nos merece o maior destaque, pela sua importância científico-social, o facto de, em 1996, a União Internacional de Ciências Geológicas ter reconhecido no perfil do Cabo Mondego, o Global Stratotype Section and Point (GSSP) para o andar Bajociano, tendo sido este o primeiro a ser definido para o Jurássico (Rocha et al., 1990; Henriques et al., 1994; Henriques et al., 1995).


CALCÁRIOS DE ANÇÃ E CALCÁRIOS DE ANDORINHA
Este conjunto de unidades carbonatadas atribuíveis ao Bajociano – Batoniano, articula-se em duas Formações com expressão na região de Coimbra – Cantanhede:

• Na base, os CALCÁRIOS DE ANÇÃ;
• No topo, os CALCÁRIOS DE ANDORINHA (=CALCÁRIOS DE SICÓ).

Os CALCÁRIOS DE ANÇÃ correspondem a calcários compactos, pobres em faunas de amonóides na sua base, mas tornando-se estas abundantes para o topo, em conjunto com icnofósseis do género Zoophycos. No topo, a ocorrência de Procerites sp. permite identificar a presença do Batoniano. Na região de Ançã, foram identificados dois níveis particularmente ricos em fauna, reconhecendo as associações: Toxamblyites cf. arcifer (Buckman), Kumatostephanus perjucundus (Buckman), Kumatostephanus pauciocostae? (Fallot), Emileia cf. polyschides (Waagen), Emileia polymera (Waagen), Otoites sauzei (d’Orbigny), Otoites contractus (Sowerby), Nautilus sp., Belemnites sp., Sonninia cf. propinquans (Bayle), Kumatostephanus kumaterus (Buckman), Skirroceras macrum (Quenstedt), Skirroceras dolichoecus (Buckman), Phaulostephanus sp..


Calcários de Ançã com buracas de dissolução


Os CALCÁRIOS DE ANDORINHA constituem uma série dominantemente carbonatada, intensamente carsificada, que está em continuidade com a unidade anteriormente descrita. Nesta unidade é constante a presença de calcários ricos em oólitos e pelóides. A macrofauna existente é pouco abundante, tendo-se recorrido à datação por foraminíferos que indiciou o Bajociano-Batoniano.


CALCÁRIOS E MARGAS DO CABO MONDEGO
Enquanto que no sector oriental a série litostratigráfica do Dogger, a partir do Bajociano inferior, apresenta uma fácies de tendência francamente regressiva (culminando com os Calcários de Andorinha), no sector ocidental, mais concretamente nas Serras da Boa Viagem e das Alhadas, depositaram-se sedimentos calco-margosos de plataforma aberta, com amonóides. Estes constituem a Formação CALCÁRIOS E MARGAS DE CABO MONDEGO, conjunto que engloba praticamente todo o Dogger.
A esta unidade corresponde uma alternância contínua de litótipos que variam entre o pólo margoso e o calcário sendo, de uma forma geral, rica em conteúdo fossilífero. Assim, os conjuntos faunísticos mais significativos observados no Bajociano são: Sonninia sp. var., Zurcheria inconstans (Buck), Haplopleuroceras sp. var., Docidoceras sp., Toxolioceras sp. var., Reynesella sp. var., Brausina sp. var., Bradfordia gr. praeradiata (Douv.), Otoites gr. sauzei (d’Orb.), Stephanoceras sp. var., Terebratula sp. var., Teloceras sp. var., Spiroceras sp. var., Garantiana sp., Perisphinctes (Vermisphinctes) sp., Parkinsonia sp. var.. Para o Batoniano destacam-se os conjuntos Procerites subprocerus (Buck.), Cadomites extintum (Quenst.), Polysphinctites sp., Bositra buchi (Roem.), Morphoceras macrescens (Buck.), Ebrayiceras sp. var., Bullatimorphites sp. var., Siemiradzkia sp. var., Homoeoplanulites sp. var., Wagnericeras kudernatschi (Liss.). No Caloviano relevamos as faunas de: Macrocephalites (M.) macrocephalus (Schlot.), Kamptokephalites sp. var., Indosphinctes patina (Neum.), Choffatia sp. var., Nequeniceras sp. var., Reineckeia sp. var., Reineckeites douvillei (Stein.), Parvirhynchia gr. minuta (Buv.), Rhynchonella royeriana (d’Orb.), Nerinea sp., e por fim, Hemicidaris mondegoensis (Lor.), Cidaris guinchoensis (Lor.), Acrocidaris nobilis (Ag.) e Glypticus burgundiacus (Mich.). As últimas camadas do Caloviano denotam nítidas influências litorais e são da base do Caloviano superior.


JURÁSSICO SUPERIOR OU MALM

O Jurássico superior aflora apenas nos sectores mais ocidentais do Baixo Mondego (Serras da Boa Viagem, Alhadas e Verride). Em termos estratigráficos, verifica-se a existência de uma lacuna significativa relativamente às unidades da base do Caloviano superior. A descontinuidade envolvida indicia uma descida importante do nível eustático, provavelmente relacionada com a entumescência térmica que antecede a segunda fase de rifting do Atlântico Norte. O registo sedimentar recomeça somente no Oxfordiano médio(?) associado a novo episódio transgressivo, com depósitos essencialmente lacustres ou lagunares intercalados com algumas bancadas de fácies marinha litoral. Este conjunto, com cerca de 300 m de espessura, foi inserido por P. Choffat no andar “Lusitaniano”.

Este compreende três unidades litostratigráficas sucessivas:
1. na base, o COMPLEXO CARBONOSO do Oxfordiano médio a superior;
2. seguem-se os CALCÁRIOS HIDRÁULICOS, também eles do Oxfordiano médio a superior (=CALCAIRE À CIMENT de Choffat, 1901);
3. no topo, as CAMADAS MARINHAS RICAS DE LAMELIBRÂNQUIOS (=CAMADAS COM PHOLADOMYA PROTEI de Choffat, 1901) do Kimeridgiano inferior?.

O Malm termina com um extenso afloramento de um complexo arenítico – ARENITOS DE BOA VIAGEM – atribuíveis ao Kimeridgiano – Portlandiano.

COMPLEXO CARBONOSO
O COMPLEXO CARBONOSO foi particularmente estudado por P. Choffat, tendo sido activamente explorado pela Fábrica de Cimentos e Carvões do Cabo Mondego entre 1773 e 1967. A série tem cerca de 40m de espessura e começa por um conglomerado de base seguido por um conjunto de margas e calcários em plaquetas com abundantes Ostrea sp. e Corbula sp.. Segue-se a série carbonosa propriamente dita, correspondente a margas xistosas com leitos de lenhite que alternam com bancadas calcárias com Paludina ribeiroi (Choffat), Mytilus sp. e Unio sp. No topo, verifica-se a alternância de bancos de calcário compacto com bancos de arenitos avermelhados, encontrando-se impressões de pegadas de Dinossáurios (Megalosaurios pombali; Lapparent & Zbyszewski), Unio sp. e fragmentos vegetais.
No conjunto da unidade foram recolhidas associações florísticas várias, descritas nos trabalhos de Heer (1881); Teixeira (1948) e Pais (1974), assim como faunísticas. Destacamos a fauna descrita por Choffat (1880): Paludina ribeiroi (Choffat), Planorbis sp., Corbula sp., Leda sp., Cyprina minor (Choffat), Isocardia striata (d’Orb.), Cyrena sp., Perna foliacea (Choffat), Mytilus sp., Astarte sp., Ostrea cf. ermontiana (Thur), Unio moussoni (Choffat), U. cf. mayeri (Choffat), U. veziani (Choffat), U. mondegoensis (Choffat), U. hermi (Choffat) e U. variabilis (Choffat).
As associações descritas, em conjunto com dados da microfauna e flora, permitem datar a unidade como sendo do Oxfordiano médio a superior.


Complexo Carbonoso (Cabo Mondego)


CALCÁRIOS HIDRÁULICOS
A unidade CALCÁRIOS HIDRÁULICOS (=CALCAIRES À CIMENT de P. Choffat), também do Oxfordiano médio e superior, corresponde a uma série com 80m de espessura que começa com calcários cinzentos-escuros, compactos em bancadas espessas, sobrepostos por uma alternância de argilas, calcário cinzento compacto e argilas lenhitosas e piritosas. Este conjunto, apesar de pouco fossilífero, revela: Unio veziani (Choffat) e Unio heberti (Choffat) abundantes, Unio buarcosensis (Choffat), Paludina ribeiroi (Choffat), Trichites sp., Mytilus sp., Zamites sp.. Segue-se calcário margoso compacto em bancos pouco espessos, separados por interleitos de xistos betuminosos. Na sua parte inferior há abundantes fragmentos de bivalves e gastrópodes, tendo sido descritos, na sua parte média e superior, carófitas, ostracodos, bivalves (Pernomytilus sp.) e equinídeos (Hemicidaris sp.).
A unidade termina com calcário margoso compacto que revela associações faunísticas de água doce – Unio sp., Chara sp. e Paludina sp. – apesar de apresentar algumas evidências de influência marinha, como a presença de equinídeos.


Calcários Hidráulicos (Cabo Mondego)


CAMADAS MARINHAS RICAS EM LAMELIBRÂNQUIOS
As CAMADAS MARINHAS RICAS EM LAMELIBRÂNQUIOS, com 70m de espessura, correspondem a depósitos litorais muito zoogénicos com tendência regressiva na sua parte superior. As faunas são dominadas por bivalves e os cefalópodes desaparecem, multiplicando-se a fracção clástica no registo sedimentar. Trata-se de um complexo greso-margoso com faunas abundantes, com prevalência de bivalves. Destacamos, as associações: Terebratula sp., Terebratula gr. subsella (Leym.), Ostrea pulligera (Gold.), Ostrea sp., Mytilus beirensis (Sharpe), Mytilus subpectinatus (d’Orb.), Mytilus sp., Perna foliacea (Choffat), Perna sp., Trichites sp., Pinna sp., Pholadomia protei (Brongn.), Acrosalenia ribeiroi (Loriol), e espongiáros . Estes permitem que a unidade se inclua no Kimeridgiano inferior.


ARENITOS DE BOA VIAGEM
A unidade ARENITOS DE BOA VIAGEM é constituída por uma espessa série gresosa (com alternância de arenitos argilosos e de argilas) do Jurássico superior, cuja espessura varia entre os 500 e os 600 metros, assentando discordantemente sobre os terrenos subjacentes. Encontra-se limitada inferiormente pelos calcários com Perna sp., sendo o limite superior constituído pelo conglomerado caulínico grosseiro a muito grosseiro que constitui a base do Cretácico. Estes têm sido interpretados como uma sequência de fácies fluvio-deltaicas, na qual se intercalam algumas fácies marinhas de idade Kimeridgiano-Portlandiano.


Arenitos de Boa Viagem (Teimoso - Buarcos). É visível uma concentração orientada de mesogastrópodes.

CRETÁCICO

O Sistema Cretácico está amplamente representado na região do Baixo Mondego, através de um conjunto de unidades essencialmente terrígenas, com idades compreendidas entre o Aptiano e o Maastrichtiano. Tais unidades inserem-se no enchimento sedimentar das megassequências SLD4 e SLD5 de P. Cunha (1992) e representam duas fases bem distintas da evolução geodinâmica da margem continental oeste da Ibéria. A primeira destas fases reflecte a tendência transgressiva de longo termo, verificada ao nível das principais bacias oeste-europeias. Pelo contrário, o registo essencialmente continental do Campaniano-Maastrichtiano é indissociável de um importante controlo tectónico regional, centrado na “falha da Nazaré” e ao longo dos principais eixos diapíricos activos da Beira Litoral e do Norte da Estremadura.
De entre as várias unidades diferenciadas, merece destaque a existência de um extenso corpo carbonatado, particularmente rico em fósseis de invertebrados marinhos e tradutor de paleoambientes de plataforma carbonatada, aberta ou com franjas recifais. Todavia, este corpo de idade cenomaniana-turoniana é representativo de apenas 1 a 8% da espessura total da coluna sedimentar do Cretácico. Enquanto que a escassez de elementos paleontológicos nas formações gresosas enquadrantes tem vindo a dificultar a sua datação e correlação estratigráfica, as associações faunísticas recolhidas nesta unidade carbonatada permitiram o seu correcto posicionamento cronostratigráfico.

FORMAÇÃO DA FIGUEIRA DA FOZ
A FORMAÇÃO DA FIGUEIRA DA FOZ (Dinis, 1999,) (=ARENITOS DE CARRASCAL, Rocha et al., 1981; =GRÉS GROSSEIRO INFERIOR, Soares, 1966) assenta em discordância angular sobre unidades jurássicas com idades compreendidas entre o Toarciano-Aaleniano e o Kimmeridgiano, preenchendo frequentemente um paleocarso bem desenvolvido, tal como se pode observar na região de Ançã-Portunhos. É constituída por arenitos mais ou menos argilosos, finos a grosseiros e intercalados com sucessões de natureza argilosa.
A base desta unidade é atribuída ao Aptiano médio – Albiano inferior, com base em restos vegetais. O topo é marcadamente diacrónico e a sua idade é progressivamente mais recente para Oriente, em virtude da progressão do onlap que levou à instalação da plataforma carbonatada cenomaniana. As fácies da FORMAÇÃO DA FIGUEIRA DA FOZ e sua articulação, traduzem a existência de um quadro paleogeográfico marcado por uma extensa planície aluvial ou fluvio-deltaica, invadida progressivamente pelo domínio marinho.

CALCÁRIOS APINHOADOS DE COSTA D’ARNES
A unidade CALCÁRIOS APINHOADOS DE COSTA D’ARNES (Rocha et al., 1981) (=CALCÁRIOS CENOMANO-TURONIANOS, Choffat, 1900; FORMAÇÃO CARBONATADA, Soares, 1966, 1980; CALCÁRIOS DE TENTÚGAL, Barbosa et al., 1988; CALCÁRIOS DE TROUXEMIL, Soares, 1985) designa uma sucessão de natureza carbonatada, composta na sua base por alternâncias de grés calcários, margas gresosas e calcários margo-gresosos. Sobre estes assentam calcários e calcários margosos com estrutura interna apinhoada, muito fossilíferos, os quais, na sua parte terminal, enriquecem gradualmente em minerais micáceos.
A ocidente do eixo de fracturação de Arunca-Montemor-Palhaça, as fácies são bastante mais calcárias e os níveis constituintes do corpo carbonatado encontram-se perfeitamente individualizados (níveis “B” a “O” de Choffat, 1897, 1900). Entre a Figueira da Foz e o afloramento da Costa d’Arnes, é possível diferenciar 4 biozonas de amonóides por cima das camadas com ostreídeos atribuídas ao Cenomaniano médio. Tais biozonas enquadram-se no desenvolvimento de duas megassequências (C-J e K-O), a primeira das quais indiscutivelmente cenomaniana e a segunda já representativa da partes média e final do Turoniano inferior.
A maior parte dos níveis componentes da unidade são extremamente ricos em macrofósseis de invertebrados. Entre as faunas descritas, salientam-se as seguintes: Neolobites vibrayeanus (d'Orbigny), Pseudaspidoceras pseudonodosoides (Choffat), Spathites (Jeanrogericeras) subconciliatus (Choffat), Vascoceras gamai (Choffat), V. douvillei (Choffat), V. kossmati (Choffat), Mytiloides mytiloides (Mantell), M. subhercynicus (Seitz.), Trigonarca matheroniana (d'Orbigny), Chlamys guerangeri (Farge, in Couffon), Camptonectes (Camptonectes) virgatus (Nilsson), Neithea (Neithea) hispanica (d’Orbigny), N.(N.) sexcostata (Woodward), N. (?N.) dutrugei (Coquand), Plicatula auressensis (Coquand), Plagiostoma asperum (Mantell), Pycnodonte (Phygraea) vesiculare (Lamarck), Exogyra (Costagyra) olisiponensis (Sharpe), Rhynchostreon columbum (Lamarck), Ceratostreon flabellatum (Goldfuss), Gyrostrea ouremensis (Choffat), Anisocardia (Anisocardia) orientalis (Conrad), Turritella (Haustator) uchauxensis (d’Orbigny), Cimolithium tenouklense (Coquand), Aporrhais (Helicaulax) costae (Choffat), Harpagodes incertus (d’Orbigny), Ampullina (Pseudamaura) punctata (Sharpe), Tylostoma torrubiae (Sharpe), T. ovatum (Sharpe), Diplopodia variolaris (Brongniart), D. deshayesi (Cotteau), Tetragramma marticensis (Cotteau), Anorthopygus michelini (Cotteau et Triger), Heterodiadema ouremensis (Loriol), Hemiaster lusitanicus (Loriol), H. palpebratus (Loriol) e H. scutiger (Forbes).


Calcários de Trouxemil (Ançã).


GRÉS DE FURADOURO
Os GRÉS DO FURADOURO (Barbosa et al., 1988) (=GRÉS MICÁCEO FINO A MUITO FINO, Soares, 1966, 1980; ARENITOS FINOS DE LOUSÕES, Rocha et al., 1981) correspondem a uma unidade detrítica, pouco espessa, em que a abundância em minerais micáceos é uma das principais características macroscópicas. Articula-se em duas subunidades: (1) a inferior é dominada por termos gresosos finos a muito finos, essencialmente quartzareníticos e micáceos; (2) na superior abundam termos grosseiros a muito grosseiros, com tendência subarcosarenítica a arcosarenítica.
Os níveis micáceos amostrados assentam sobre estratos de calcário bioclástico correlativos do nível “J”, situando-se na continuação lateral dos calcários micáceos em plaquetas de Tentúgal-Meãs do Campo. Deste modo, a sua idade é indiscutivelmente turoniana.
A unidade coaduna-se com um quadro deposicional em ambiente de planície litoral, com condições ecológicas cada vez mais restritas.


GRÉS DE OIÃ
A Formação dos GRÉS DE OIÃ (Barbosa, 1981) (=GRÉS GROSSEIRO SUPERIOR, Soares, 1966, 1972) encontra-se em aparente continuidade sedimentar com a anterior e aflora essencialmente ao longo da margem Norte do rio Mondego, incluindo a “depressão estrutural de Antuzede-Cavaleiros”. É estrutural e petrograficamente semelhante aos Arenitos de Carrascal, anteriormente descritos, consistindo assim em grés grosseiros com tendência quartzarenítica a arcosarenítica, localmente médios a muito finos, com matriz silto-argilosa e, no geral, bem consolidados. A sua idade corresponde ao Turoniano – Senoniano inferior.


AREIAS E ARGILAS DE TAVEIRO
A unidade AREIAS E ARGILAS DE TAVEIRO (Rocha et al., 1981) (=AREIAS E ARGILAS DE VIZO, Barbosa et al., 1988) é a mais recente das unidades cretácicas da região em estudo, e encontra-se amplamente representada ao longo da margem Sul do rio Mondego, entre Taveiro (Coimbra) e Alfarelos. É claramente discordante sobre as unidades anteriores e materializa, nos domínios do Baixo Mondego, o enchimento da megassequência deposicional SLD 5 (Cunha, 1993; Reis et al., 2000).
São distinguíveis duas unidades principais: (1) uma unidade inferior constituída por níveis argilosos avermelhados, intercalados com níveis lenticulares de arenito esbranquiçado, com um conglomerado rico de restos de vertebrados e com areias e argilas com fósseis vegetais (flora com Debeya); (2) um conjunto superior assente em descontinuidade sobre o precedente e constituído por areias cauliníferas. Os elementos paleontológicos actualmente existentes permitem atribuir uma idade ao conjunto, compatível com o intervalo Campaniano superior – Maastrichtiano.
Para além dos restos vegetais e da riquíssima fauna de vertebrados, foram também recolhidos moldes de gastrópodes terrestres na parte inferior da Formação, identificáveis com a família tipicamente cretácica dos anadromídeos (Anadromus penai, Callapez). No seu todo, o conjunto é correlacionável com as faunas dos ARENITOS E ARGILAS DE AVEIRO.
As fácies presentes e sua articulação traduzem claramente uma sedimentação em meio continental, nos domínios de uma vasta planície aluvial com canais sinuosos pouco ramificados, passando já fora dos actuais domínios do Baixo Mondego, a ambientes lagunares salobros e a ambientes marinhos litorais. Ao contrário das unidades cretácicas anteriores, polarizadas segundo direcções próximas de Este-Oeste, a drenagem do sistema fluvial referido efectuava-se segundo um sentido dominante para NW, na dependência de um controlo tectónico efectivo por parte da “falha da Nazaré” e dos principais eixos diapíricos.

   

Complexo Xisto-grauváquico e Cristalofílico Grés de Silves Camadas de Coimbra Margas e Calcários Margosos de Eiras, Margas e Margo-calcários de Adémia e parte de Calcários Margosos de Pedrulha Calcários de Ançã e Calcários de Andorinha Lacuna estratigráfica Complexo carbonoso, Calcários hidráulicos e camadas marinhas ricas de lamelibrânquios Arenitos de Boa-Viagem Lacuna estratigráfica Formação de Figueira da Foz Calcários Apinhoados de Costa d'Arnes Grés de Furadouro e Grés de Oiã Areias e argilas de Taveiro